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A arqueologia afetiva de Marcelo Rosenbaum: tranças de carnaúba como fibras das mulheres de Várzea Queimada

sex 9 de agosto de 2019 15:29

No terceiro dia do “I Seminário Internacional Patrimônio da Humanidade”, realizado em Crato, a palestra “Chapada: da Cultura ao Design Essencial” mostrou que o exemplo da comunidade de Várzea Queimada, no Piauí, vale o reconhecimento do patrimônio cultural e pode transformar vidas no árido sertão. (Foto: Mailca Marques)

Marcelo Rosenbaum não imaginava um dia estar ao lado de Marcilene Barbosa em um evento internacional sobre a Chapada do Araripe, no SENAC, em Crato. Mas, o que o designer e a liderança comunitária de Várzea Queimada, Piauí, traçaram no projeto “A Gente Transforma” (AGT) reflete que o encantamento da cultura pode ser mais do que um patrimônio, e por assim dizer, se tornar um modo de vida. A descoberta de valores a partir dos saberes revividos fez do trançado da palha de carnaúba, fibra de esperança para a criação coletiva e o desenvolvimento social de uma comunidade no sertão piauiense.

Através da perspectiva do design essencial como ferramenta metodológica de trabalho, o projeto fez com que um cesto de palha de carnaúba, na casa de Dona Cida, uma das primeiras moradoras que falou com a equipe de visitação a comunidade, deixasse de ser lixo para ser arte. O processo de aproximação na vida de cada morador da comunidade, de 900 habitantes e somente duas famílias, Carvalho e Barbosa, se deu por meio de uma simples pergunta: “O que seus avós faziam?”. Dona Cida, por exemplo, sabia que o cesto era artesanato feito pela sua avó através da palha extraída da carnaúba, mas o reconhecimento da obra como design não acontecia por conta da desvalorização do trabalho.

“A partir do encontro, a ideia era fazer essa arqueologia afetiva, escavar a terra de Várzea Queimada e revisar os seus ancestrais”, explica o arquiteto. Era 2012 e, depois de quase oito meses de seca, Rosenbaum ao lado de uma equipe de vários profissionais que estavam naquele dia com o pajé Kaká Verá, fizeram uma dança da chuva. Após o rito, chove na comunidade. O exemplo citado por ele na palestra, aponta os caminhos que o projeto começou a trilhar ao acreditar no artesanato e na força cósmica, conectado pela natureza e difundido pela subsistência. Para ele, o saber popular permite criar uma permanência com a terra, sobretudo por meio da troca de fluxos, das extrações e da sobrevivência.

O cesto de Dona Cida, herdado pela técnica repassada de mãos e mãos pelas mulheres da comunidade, se transformou em uma coleção de moda vestida pela modelo Carol Trentini, clicada pelas lentes do fotógrafo Fábio Bartelt, na cenografia do São Paulo Fashion Week. A coleção TOCA, produzida pelos homens que trabalham com a borracha, por meio da reciclagem de pneus da estrada, e pelas mulheres que trançam a palha de carnaúba, através da extração natural da árvore, se tornou possível em produtos de design e moda, dispostos entre joias, anéis, colares, tapetes, colchões, bogoiós e máscaras.

Segundo Rosenbaum, o cesto já gerou mais de 1000% de renda para Várzea Queimada. Com o apoio técnico do SEBRAE, o projeto acarretou a constituição da Associação das Mulheres Artesãs de Várzea Queimada (AMVQ) e, também contribuiu para o desenvolvimento econômico da localidade, gerando aproximadamente 100 mil negócios para os moradores. “O cesto é rançado por mulheres, 35 mulheres unidas, fortalecidas a partir dessa geração de renda, que fala da ancestralidade, dos saberes e hoje”, conta o arquiteto que chegou até a localidade por meio de uma métrica que colocava o sertão árido da comunidade em uma linha de baixo desenvolvimento humano.

Subverter esse paradigma métrico, levantar a ancestralidade do povo da comunidade e valorizar o artesanato local foram as estratégias do AGT. Para Rosenbaum, nunca houve baixo desenvolvimento humano, mas sim falta de oportunidade. De Várzea Queimada, das avós do trançado, o cesto já viajou pela Europa e pelos Estados Unidos. Em Milão, participou de uma grande feira de design que reúne os maiores trabalhos do mundo. Virou livro, documentário, website e experiência de turismo de base comunitária. “Eu sempre acreditei que era o encantamento e estamos em um território de encantados, esse é o nosso patrimônio também, não é só coisa física. É essa riqueza”, articula.

Durante o desenvolvimento do projeto social, Rosenbaum percebeu a bravura de Marceline em trançar dia e noite no chão da igreja, lugar de trabalho do grupo comunitário de artesanato. Hoje, a liderança comunitária já venceu duas vezes o prêmio de mulher empreendedora do ano pela SEBRAE de Piauí, mas ela conta que teve que primeiro vencer a desconfiança das mulheres, para assim, reconquistar a arte. “De fato, o projeto transformou nossa vida, uma comunidade, não é só um objeto, ele é uma produção de alma, quando o projeto aconteceu éramos uma comunidade, pessoas diferentes, e a partir de então, desse momento, conhecemos o que era design”, explica Marceline.

A liderança feminina diz que foi graças ao saber ancestral dos antepassados de Várzea Queimada que a comunidade permanece viva com o trabalho, pesado e suado, e a fé. Transformar a comunidade não foi fácil. Rosenbaum fala que além das vidas que fazem da arte um modo de vida, o projeto transformou a forma como ele pensa o design e age no mundo. Ele relaciona a comunidade do Piauí com o dorso da Chapada do Araripe, enfatiza que o patrimônio cultural pode ser reconhecido pelo Brasil e pelo mundo. E, isso parece verdade na fala de Marceline, quando pergunta para o público: “somos mulheres e por que não dizer empoderadas que acreditam em si próprias?”.

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